Etiópia, estabilidade política e terrorismo: cenários futuros

Gustavo Milhomem Cardoso e Renan Amorim Cavalcante

Resumo: Este artigo abordará a relação entre a estabilidade política na Etiópia e os ataques terroristas no país. Utilizaremos a Teoria dos Jogos para prospectar diversos cenários futuros e analisa-los. Lançaremos mão também do método Grumbach, passando pelo contexto histórico do país, a situação atual, a atuação terrorista do grupo Al-Shabaab, para depois gerarmos quatro cenários distintos. Concluindo o artigo, interpretaremos os cenários gerados.

Palavras-chave: Etiópia. Terrorismo. Al-Shabaab. Estabilidade política.

Introdução

            No presente artigo abordaremos a questão do terrorismo na Etiópia juntamente com a estabilidade política do país, tentando entender como este pode influenciar naquele. Faremos uma análise utilizando a Teoria dos Jogos para gerar possíveis cenários futuros quanto ao destino político do país e as consequentes ações de grupos terroristas atuantes no país africano.

            Faremos, para tanto, uma pesquisa bibliográfica: análise de notícias sobre eventos na Etiópia e ações de grupos terroristas, uso de relatórios diversos (quer feitos por autoridades governamentais, quer produzidos por institutos de pesquisa).

            Além disso, escolhemos o método Grumbach para proceder com a produção e análise dos cenários. Entendemos que este método é o que mais nos facilita a pesquisa e a geração dos cenários futuros. Assim, discutiremos o histórico etíope, bem como a situação atual em que o país africano se encontra. Abordaremos a atuação de grupos terroristas dentro do território (Al-Shabaab) e as respostas escolhidas por esse Estado africano para combater essa atuação.

            A partir deste pano de fundo histórico e atual prosseguiremos para a Teoria dos Jogos a fim de criarmos possíveis cenários futuros que dizem respeito a estes dois atores: o Estado etíope e o grupo islamista Al-Shabaab. Utilizaremos o jogo de Forma Extensiva, com uma árvore de decisões.

            Depois disso, partiremos para as considerações finais, onde interpretaremos os cenários gerados e discutiremos quão prováveis são cada um dos cenários, elencando-os do mais provável ao menos.

Uma breve abordagem histórica

O século XX

Na Etiópia, em 1916, ascendeu ao trono uma das principais figuras políticas do país no século XX, o então príncipe regente Ras Tafari. Num processo de modernização da imagem da nação no cenário internacional, aboliu a escravidão, e fez seu país adentrar à Liga das Nações, em 1923, com o intuito de se aproveitar dos mecanismos de segurança coletiva. Porém, a Itália invadiu a nação africana em 1935, sem que houvesse respostas contundentes da Liga. Ebegbulem (2012) exemplifica o fracasso do mecanismo de segurança coletiva através do caso etíope: “Um processo similar ocorreu em 1935, quando a Itália invadiu a Etiópia. Sanções foram aprovadas, mas a Itália teria vetado qualquer resolução mais consistente. […] Dessa maneira, nenhuma das sanções mais significativas foram aplicadas ao governo italiano”.

Ras Tafari, agora empossado rei Etíope desde 1930, com o título de Haile Selassie, foi exilado em 1936 ao perder a guerra contra os italianos. Aliou-se aos britânicos, nação inimiga da Itália, pelos desdobramentos da 2º Guerra Mundial, e reconquistou Addis Ababa em 1941. Através da década de 1950, o governo de Selassie avançou em algumas questões institucionais e reformas importantes de caráter educacional, político e de direitos humanos. A década de 1960 foi marcada por desilusão pública acerca da monarquia nacional, válido lembrar que o rei Haile estava no poder há cinco décadas, e por conflitos internacionais com a Eritréia e a Somália. Um golpe de Estado foi deflagrado pelos militares, assim como um comunicado declarando a fase socialista do país, que iria até 1991.

Durante a década de 1990, o país esteve num governo de transição, que durou de 1991 à 1995. Neste período, o líder do país era Meles Zenawi. Durante tal governo, a nação etíope conquistou progressos importantes rumo à sua democratização, como uma eleição multipartidária de 1995, além da Constituição de 1994, na esperança de uma época próspera e democrática para a sociedade etíope. Porém, Zenawi adotou posicionamentos de tendências autoritárias, e, em 2005, venceu eleições que foram contestadas pela oposição. Parte da população etíope passou a vê-lo como um ditador. Apesar de ter assumido em 1995, Meles Zenawi fica no poder até o ano de 2012, quando faleceu em agosto (GAGLIARDONE, 2012). Logo, assume Hailemariam Desalegn.

Situação recente e terrorismo

O novo primeiro-ministro enfrentou diversos protestos populares. A população etíope clamava por alterações na ordem política e reformas econômicas em protestos que duraram anos, nas principais regiões do país: a capital Addis Ababa, Oromia e Amhara. Centenas de pessoas são assassinadas por forças do governo; grupos opositores foram considerados terroristas e o país esteve em estado de emergência. Por fim, em abril de 2018 Desalegn renuncia ao cargo de primeiro-ministro, e é substituído pelo atual Abiy Ahmed, com políticas reformadoras e até então inéditas no país.

O governo de Abiy Ahmed é marcado pela retirada de três organizações políticas da lista de terroristas do país, o fim do estado de emergência, assim como políticas reformadoras na política e na economia, inclusive ao aderir posicionamentos liberais. Mesmo em poucos meses no governo, Ahmed já foi reconhecido por organizações internacionais como um governo. Sobre sua administração, a Human Rights Watch faz as seguintes ponderações:

One year ago this month, Dr. Abiy Ahmed was sworn in as prime minister of Ethiopia. His first few months in office saw many positive human rights reforms and a renewed sense of optimism following several years of protests and instability, along with decades of repressive authoritarian rule. Thousands of political prisoners have been released, a peace agreement has been signed with neighboring Eritrea, and Abiy has pledge to reform repressive laws  (HUMAN RIGHTS WATCH, 2019).

            Portanto, para fins comparativos, reconhecemos como governo não-democrático de 1991 à 2018. De abril de 2018 ao presente momento, durante o período Abiy Ahmed, entende-se como um governo prioritariamente democrático.

De 2011 à 2018, o governo etíope reconhecia como grupos terroristas as seguintes organizações: Al-Qaida, Al-Shabaab, Frente de Liberação de Oromo, Frente de Libertação Nacional de Ogaden e Ginbot 7, sendo os três últimos grupos independentistas ou de movimento político opositor. Desde 2018, já no governo de Ahmed, apenas a Al-Qaida e o Al-Shabaab continuaram na lista de organizações terroristas. Porém, a Central Intelligence Agency (CIA), instituição estadunidense de inteligência, considera haver apenas a ameaça do Al-Shabaab no território etíope, desconsiderando a atuação ou ameaça da Al-Qaida no país.

Portanto, o grupo terrorista que permanece como a principal ameaça ao território etíope é o Al-Shabaab. O Global Terrorism Index 2018, do Institute for Economics and Peace,  pontua que o ataque terrorista mais mortal de 2017 foi na capital somali de Mogadishu, ao ceifar a vida de 588 pessoas. A organização terrorista foi considerada uma das quatro mais mortais do ano de 2017, além de que foi a única destas em que teve aumento de suas atividades terroristas nos últimos dois anos.

Figura 1 – Mortes por terrorismo

Mortes por terrorismo

Fonte: Global Terrorism Index – 2018, p. 15

Significando “a Juventude”, o grupo islamista Al-Shabaab surgiu na Somália, segundo analistas, quando alguns fundamentalistas de al-Ittihad al-Islami (AIAI, ou “Unidade do Islã”), um grupo salafista militante, juntaram-se ao Conselho Supremo das Cortes Islâmicas (ICU, em inglês) (FELTER, C.; MASTERS, J.; SERGIE, M. A., 2019). Al-Shabaab e o ICU tomaram controle da capital somali em 2006, até que forças etíopes invadiram o país em dezembro do mesmo ano e derrotaram o ICU. Isso fez com que Al-Shabaab se radicalizasse sobremaneira.

Assim, seus objetivos, apesar de variarem internamente, podem ser resumidos no desejo de estabelecer um Estado islâmico na Somália. Além disso, eles são contra governos apoiados por nações ocidentais. De acordo com a CIA, um objetivo do grupo é punir a Etiópia por participar da Missão da União Africana para a Somália (AMISOM), bem como compelir a Etiópia a retirar tropas da Somália (CIA, 2019).

Instabilidade política surgindo?

            No dia 22 de junho (domingo) de 2019 houve uma tentativa de golpe de Estado na região de Amhara. Segundo informações, três pessoas morreram, dentre elas o próprio governador da região (Ambachew Mekonnen) e o chefe do Estado-Maior do Exército da Etiópia (Asamnew Tsige) (DW, 2019). Mekonnen era ligado ao Movimento Nacional Democrático Amhara (MDNA), que foi parte da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), cujo líder é o próprio Abiy Ahmed.

            Tendo em vista este recente evento de instabilidade, bem como o histórico conturbado do país (que ainda passa por turbulências políticas), prosseguimos para projetar alguns cenários futuros ligados à possibilidade de desestabilização política etíope e às subsequentes respostas do grupo Al-Shabaab.

Gerando os cenários

            Como dito anteriormente, o jogo escolhido foi o de Forma Extensiva, onde E é o Estado Etíope, que faz a primeira “decisão”. Uma das ações de E seria Es, ou seja, a estabilidade política. A outra seria In, que significa a instabilidade política. Já AS é o segundo player do jogo, a saber o Al-Shabaab, que pode tomar diferentes decisões frente à ação de E. AS pode causar mais ataques no território etíope (Ma), ou optar pela via contrária, causando menos ataques (ma). Os números estão dispostos de acordo com a ordem dos jogadores: E primeiro e AS depois. Já os cenários serão explicados da esquerda para a direita.

Figura 2 – Jogo entre Etiópia (E) e Al-Shabaab (AS)

Jogo entre Etiópia e Al-Shabaab

            O primeiro cenário é o de estabilidade política etíope seguida de menos ataques por parte do grupo terrorista (3,0). Neste cenário a Etiópia sai bem-sucedida pois se encontra tanto estável politicamente quanto mais segura internamente.

            O segundo cenário também demonstra estabilidade etíope, mas apresenta mais ataques terroristas (2,1). A Etiópia só ganha no quesito político, mas é prejudicada em segurança nacional. Já o Al-Shabaab não sai mais prejudicado pois consegue atacar mais seu inimigo (Etiópia), além de que mais ataques indicam a existência de recursos (humanos e financeiros).

            No terceiro cenário temos a instabilidade política na Etiópia, seguida por aumentos nos ataques terroristas (0,3). Neste cenário a Etiópia sai prejudicada porque não consegue nenhum tipo de estabilidade interna (nem política, nem securitária). Já o grupo terrorista islamista sai ganhando pois seu adversário está desestabilizado e as ingerências armadas do grupo podem ser bem-sucedidas.

            Por fim, o quarto cenário apresenta uma Etiópia instável politicamente, mas não tão prejudicada do ponto de vista do terrorismo (1,0). De alguma maneira, nesta ocasião o Al-Shabaab não é capaz de perpetrar ações terroristas mesmo em uma conjuntura favorável.

Interpretação dos cenários e conclusão

            Pensamos que a probabilidade de ocorrência destes cenários propostos seja a seguinte: o segundo cenário como o mais provável, seguido do primeiro, o quarto e, por último, o terceiro cenário.

            O segundo cenário é o mais provável pois a Etiópia no decorrer dos anos tem melhorado sua esfera política. Contudo, eventos recentes como a tentativa de golpe na região de Amhara e atentados de cunho político (como o que ocorreu em um comício ano passado) (DW, 2018), sugerem uma estabilização política, em alguma medida, conturbada.

O primeiro cenário é o segundo mais provável devido ao fato de o Al-Shabaab continuar atuante na Somália e, portanto, continuar a ameaçar a segurança etíope, visto que a Etiópia é vista como um adversário do grupo islamista. Apesar disso, vários dos fatores que tornam países como o Quênia alvos do grupo vêm diminuindo na Etiópia com o passar dos anos. Segundo Torbjörnsson (2017), a Etiópia não é tão visada pelo Al-Shabaab  como o Quênia por tratar melhor a sua população muçulmana. Mesmo quando há repressões na Etiópia, não haveria distinções entre cristãos e muçulmanos (lembrando que a Etiópia é um país de maioria cristã), o que enfraqueceria uma retórica do grupo islamista que fala contra repressões estatais visando adesão de outras pessoas. Não só isso, mas a Etiópia tem diminuído a participação política da Igreja Ortodoxa Etíope, o que abre espaço para outras religiões.

O quarto cenário vem em seguida por conta da dificuldade em se chegar uma completa instabilidade política no país. E, apesar das limitações, a Etiópia tem melhorado suas instituições. Mesmo que isso viesse a acontecer, é difícil que um cenário de desordem política no país não afetasse diversas instituições que trazem justiça à população. Caso o país piorasse, é bem provável que as populações muçulmanas enfrentassem diversos problemas, o que causaria um aumento nas ações terroristas, e não uma diminuição (como o cenário apresenta) – isto porque estes muçulmanos poderiam aderir ao discurso islâmico extremista.

Já o terceiro cenário é o menos possível de ocorrer pelos mesmos motivos do quarto. Além de ser o menos desejável. Caso a Etiópia seguisse esta direção, é provável que intervenções externas e missões de paz ocorressem no país, buscando a estabilização do mesmo.

Referências bibliogáficas

BRITANNICA. The rise and reign of Haile Selassie I (1916-74). Disponível em: <https://www.britannica.com/place/Ethiopia/The-rise-and-reign-of-Haile-Selassie-I-1916-74#ref281838>. Acesso em: 21 de junho de 2019.

CIA. (2019). The World Factbook – Ethiopia. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/et.html>. Acesso em: 21 de junho de 2019.

  1. (2018). Atentado causa morte em comício de novo premiê da Etiópia. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/atentado-causa-morte-em-comício-de-novo-premiê-da-etiópia/a-44367142&gt;. Acesso em: 23 jun 2019
  2. (2019). Fracassa tentativa de golpe na Etiópia. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/fracassa-tentativa-de-golpe-na-etiópia/a-49317988&gt;. Acesso em: 23 jun 2019.

EBEGBULEM, Joseph. The failure of collective security in the post World Wars I and II International System. 2012.

FELTER, C.; MASTERS, J.; SERGIE, M. A. (2019). Al-Shabab. Council on Foreign Relations. Disponível em: <https://www.cfr.org/backgrounder/al-shabab&gt;, Acesso em: 20 jun 2019,

GAGLIARDONE, I. Meles Zenawi the ideologue has left Ethiopia at a dangerous crossroads. Disponível em: <https://www.theguardian.com/commentisfree/2012/aug/23/meles-zenawi-ideologue-ethiopia>. Acesso em: 15 de junho de 2019.

GOVERNO DO REINO UNIDO. Foreign travel advice – Ethiopia. Disponível em: <https://www.gov.uk/foreign-travel-advice/ethiopia&gt;. Acesso em: 21 de junho de 2019.

HUMAN RIGHTS WATCH. Ethiopia: Abiy’s Firt Year as Prime Minister, Reviwn of Accountabillity and Justice. Disponível em: <https://www.hrw.org/news/2019/04/08/ethiopia-abiys-first-year-prime-minister-review-accountability-and-justice>. Acesso em: 14 de junho de 2019.

TORBJÖRNSSON, Daniel. (2017). Explaining the differences in al-Shabaab

expansion into Ethiopia and Kenya. Studies in African Security. Disponível em: <https://www.foi.se/download/18.7fd35d7f166c56ebe0bb3b4/1542369060378/Explaining-the-differences-in_al-Shabaab-expansion-into-Ethiopia-and-Kenya_FOI-Memo-6061.pdf&gt;. Acesso em: 24 jun 2019.

 

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