A lição de Dean Acheson a Donald Trump

O dia é 21 de janeiro de 1949. Fase inicial da Guerra Fria, e o mundo está numa constante e rápida reconfiguração no Período Pós-Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos da América (EUA) tem como líder o presidente democrata Harry Truman. Neste meio de janeiro, acaba de assumir a Secretaria de Estado dos EUA, equivalente do Ministério de Relações Exteriores brasileiro, o 5º Secretário de Estado do período Truman, Dean Acheson. O Secretário tornaria-se uma peça-chave da reconfiguração mundial, por ter iniciado o moderno relacionamento sino-americano. Em 1949, além da ascensão de Acheson, fato ainda mais importante no Sistema Internacional (SI) é a proclamação da República Popular da China em outubro, de modo a selar a vitória dos comunistas sobre os nacionalistas na China continental.

No avanço do tempo, 2019 expõe as relações diplomáticas complicadas com a China na Era Trump (e por China aqui, entende-se a República Popular da China). Desde o período eleitoral, Trump já fazia pesadas críticas ao país oriental. Ao assumir o poder em janeiro de 2017, também pôs as relações sino-americanas às sombras da imprevisibilidade. Com o desenrolar do Período Trump, ficou mais claro ao mundo que as posturas do presidente continuaram tão críticas quanto antes. E, além das suas críticas à China no discurso, elas tornaram-se iniciativas internacionais de peso. O principal desenrolar da inimizade de Donald Trump com o Dragão Asiático é a Guerra Comercial1 entre os dois países. Ambos são as maiores potências globais da hodiernidade, e os frontes desse novo tipo de Guerra afetam não só os dois “Estados combatentes”, mas inferem resultados negativos em todo o Comércio e PIB internacionais. E, como o Comércio é o principal propulsor do PIB mundial (ou seja, o Comércio cresce numa taxa anual superior a do PIB), há severas preocupações sobre o resultado dessa Guerra. Talvez, por causa dessa redução do crescimento do comércio mundial, o termo Slowbalization2 utilizado por Soumaya Keynes e Chad Bown tenha tornado uma realidade.

Apesar das significativas diferenças entre o mundo da década de 1950 e de 2019, algumas lições de Acheson soam atemporais. Em 1950, ele sugere:

“Propondo basear as relações com a China no interesse nacional, Acheson assegurava que a integridade chinesa era um assunto de interesse nacional norte-americano independentemente da ideologia doméstica da China […]”.

O pragmatismo de Acheson frente à China não ocorreu por acaso. O país oriental não tinha nem um ano de fundação, e o Secretário de Estado já defendia boas relações com o país. Mesmo que os Estados Unidos tenham apoiado os nacionalistas chineses liderados por Chiang  Kai-shek na guerra civil, o próprio Acheson descrevia suas estratégias em batalha como: “a mais grosseira incompetência jamais vivenciada por qualquer comando militar”. Ou seja, mesmo durante a Guerra Fria, para Dean Acheson independe qual seria o posicionamento político das autoridades chinesas. A frieza realista com que o Secretário fazia ponderações sobre a política interna da China não revela nenhuma afeição pela ideologia comunista. Pelo contrário, seus posicionamentos na Ásia foram pensados, obviamente, para defender os interesses dos Estados Unidos.

Contudo, o atual presidente dos EUA não lida mais com uma China instável. O Partido Comunista da China (PCC) não é mais um recém chegado ao poder. Eles lideram o país desde a ascensão de Mao Zedong em outubro de 1949. Na verdade, a face chinesa com que os EUA lidam hoje é muito mais de uma potência reemergente4, além de mais estável. Os Estados Unidos não podem manter a visão da Guerra Fria em pleno 2019. Não há como rivalizar com a China como se rivalizou com a Rússia durante boa parte do século XX. A presidência dos EUA leem a China hoje de maneira equivocada, pois utilizam-se da Guerra Comercial como um instrumento de limitação de seu poderio econômico. Porém, diferente do relacionamento russo-americano da Guerra Fria, as relações econômicas sino-americanas são de complementaridade. Durante as décadas de 1950 à 1990, sanções econômicas dos EUA à URSS ou vice-versa não teriam efeito significativo, pois o fluxo comercial era ínfimo. Porém, hoje a economia estadunidense é totalmente dependente, seja por oferta ou demanda, da economia chinesa, assim como o inverso é verídico.

Portanto, tendo como base a complementaridade econômica das duas maiores potências, é contraprodutivo aos EUA atingir a eficiência da economia chinesa. Dados da The Observatory of the Economic Complexity confirmam os fortes laços de interação sino-americana: a China é o principal parceiro importador dos EUA. É o país que os Estados Unidos mais importam produtos. A China sozinha beira os 10% do total de exportações dos EUA, assim como 21% de tudo que os EUA importam são de origem chinesa. Estados Unidos e a República Popular da China são duas nações com economias mais complementares que concorrentes. Isto faz com que o pragmatismo de Acheson seja útil nos dias de hoje. Qual é a razão numa rivalização com a China, se os resultados são uma desaceleração da economia global, e, consequentemente, da própria economia dos EUA? O pragmatismo Achesoniano não existe por uma suposta afinidade ideológica com os comunistas chineses, mas sim pelo próprio proveito econômico dos Estados Unidos. A melhora no poder de compra da China, assim como a expansão deste mercado, deveriam ser vistos como uma boa oportunidade para o governo e companhias transnacionais dos EUA, e não como uma ameaça às suas soberanias e existências.

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  1. Apesar do artigo pressupor a existência do que convencionou-se chamar de Guerra Comercial, ainda há autores que desconsideram sua existência. Como exemplo: FELDSTEIN, Martin. There is no Sino-American Trade War.
  2. O termo cunhado não é de autoria de Keynes e Bown. Contudo, ambos contextualizaram o novo termo no episódio 69 de seu podcast Trade Talks.
  3. A China Comunista, ou República Popular da China, foi fundada em outubro de 1949.
  4. O termo reemergente não é uma unanimidade entre autores. Muitos utilizam o termo “emergente” para descrever países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Porém, no caso específico da Rússia e principalmente da China, seria mais adequado o termo reemergente, até porque, durante os últimos 20 séculos, a China era o maior PIB do globo em 18 oportunidades.

 

Fonte:

OEC. United States. Disponível em: <https://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/usa/&gt;. Acesso em: 1º de fevereiro de 2019.

TRADE TALKS. 69: Slowbalization. Podcast, 2019.

KISSINGER, Henry. Diplomacia triangular e a Guerra da Coreia. Em: Sobre a China. Páginas 128-131; tradução de Cássio de Arantes Leite – 1º ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

Fonte da ilustração: Andrew Rae, em artigo de Brook Larmer no New York Times. When it comes to a Trade War, China takes the long view. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2018/08/07/magazine/when-it-comes-to-a-trade-war-china-takes-the-long-view.html&gt;. Acesso em: 1º de fevereiro de 2019.

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