A CHINA E A ÁSIA

Desde meados do século XX, a China busca uma retomada do seu gigantismo na política internacional. Historicamente, o país já foi uma potência naval mundial, além de ter sido um dos mais influentes impérios no globo. Fareed Zakaria, em seu livro The Post-American World, afirma que “It has become commonplace to say that actually China and India were as rich as the West right up until the 1800s” (ZAKARIA, 2008 p. 52). Sua civilização é a mais antiga e que ainda está viva nos dias de hoje, com mais de 5.000 anos de continuidade. No entanto, esta força sofreu impactos severos com algumas restrições do próprio governo chinês. Diferentemente destas políticas isolacionistas que a China tem adotado ao longo dos últimos séculos, o Sistema Internacional (SI) atual depara-se com uma China mais aberta, disposta a ser um ator predominante dentro das instituições liberais do nosso século. Ikenberry (2011) aponta que novas potências ascendentes, como Brasil, Índia e China, começam a impor, no SI moderno, suas próprias ideias e agendas, além de que tais potências, em grande parte lideradas pelo país asiático, não contestam os valores e princípios da ordem liberal global. O fato da China não contrapor a ordem atuante no Sistema Internacional, nem muito menos criar uma força paralela ou similar, faz com que ela se insira neste sistema. Porém, sua inserção neste sistema já ocorreu há décadas, tendo como símbolo a conquista da China continental (ou República Popular da China/RPC) do assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1971.

Frente tal situação, ainda há ainda outro fator ocorrido pela 2º metade do século XX que selou a participação chinesa na lista de importante player no sistema. Sua entrada e participação ativa nas diversas Organizações Internacionais (OIs) é este fator. Entre as dezenas de OIs que o país participa, seja como membro pleno ou membro observador, estão:

  • Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (ASEAN, na sigla em inglês)
  • Associação das Nações do Sudeste Asiático (APEC, na sigla em inglês)
  • Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD)
  • Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)
  • Fundo Monetário Internacional (FMI)
  • Organização para a Proibição de Armas Químicas
  • Nações Unidas e suas diversas agências
  • Organização Mundial do Comércio (OMC)

Percebe-se, portanto, a diversificação da natureza das OIs nas quais faz parte. Entre elas, há aquelas com recortes geográficos, ou seja, especializadas na Ásia ou ainda em subpartes do continente asiático. Há aquelas de requisições específicas, como a Organização para a Proibição de Armas Químicas e a AIEA. Contudo, o que a China almeja no atual momento é aumentar a sua participação e importância dentro das organizações em que está presente. Em algumas, como as de natureza econômica, como o FMI e a OMC, é notório e explícito a desvalorização do peso chinês frente às próprias organizações. Como exemplo, utilizar-se-á o livro de Oliver Stuenkel “BRICS e o futuro da ordem global”. Nele, o autor ressalta os reiterados posicionamentos do então BRIC, formado por Brasil, Rússia, Índia e China, no que diz respeito à suas participações no FMI. Ele diz: “Os países dos BRICs, portanto, se apresentaram como ‘as partes interessadas responsáveis’, cuja maior inclusão nas estruturas globais de tomada de decisão teria efeitos positivos para a governança e a estabilidade econômica globais, em termos mais generalizados” (STUENKEL, 2017 p. 48).

Frente tais fatores, entende-se que a fase atual da política externa chinesa está focada em fixação. Tal fixação refere-se tanto a sua entrada de vez no jogo da política internacional das Grandes Potências do século XXI, assim como da sua entrada de vez como ator criador de agenda no SI, não apenas seguidor das agendas impostas por outras grandes potências. Porém, para que tenha sucesso na sua política de tornar-se um membro mais ativo, significativo e indispensável do Sistema Internacional, a China facilitaria seu movimento em prol destes fins via representação de toda a Ásia. Em outras palavras, para que a China alcance ainda mais projeção global, seja de natureza militar, político-econômica, tecnológica ou quaisquer outras, seria um elemento facilitador o fato dela representar a Ásia, pois assim ela poderia não falar apenas pelos vários povos chineses, mas sim por todo o continente. Porém, como o país representaria toda a Ásia, considerando que há outros grandes atores na região? Índia, Japão e Rússia, em suas próprias maneiras, são empecilhos desta política externa mais atuante por parte dos chineses.

A EXISTÊNCIA DE OUTRAS POTÊNCIAS

A China está num processo em que busca, com o aval da comunidade internacional, o reconhecimento da sua voz como a voz de toda a Ásia. Contudo, a simples existência de economias tão robustas no comércio mundial na região, como o Japão e a Índia, já são empecilhos naturais para a predominância da China representar toda a Ásia. Segundo dados de The Observatory of Economic Complexity (TOEC), com dados recentes, aponta que a Índia é a 17º maior economia exportadora do mundo, enquanto o Japão é a 4º maior economia exportadora do mundo.

PAÍSES PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) NOMINAL ECONOMIA EXPORTADORA
CHINA
JAPÃO
ÍNDIA 17º
RÚSSIA 11º 16º

Fonte: elaboração própria, com dados do Banco Mundial e TOEC

Pela simples tabela acima, é perceptível a conclusão analítica de que a China é o principal ator econômico da Ásia. Contudo, não é um ator isoladamente líder da economia asiática, visto o fato de que outros países apresentam economias bem fortes. O Japão, apesar de ter um terço da economia chinesa, algo em torno de US$4 trilhões frente a US$12 trilhões, está abaixo por apenas uma posição em relação à China, no que tange às maiores economias mundiais, segundo seus PIBs nominais. A tabela também mostra, mesmo que implicitamente, que a Índia e a Rússia, diferente do Japão e China, são dois países com poucas trocas comerciais. Isto é perceptível já que, mesmo sendo respectivamente, a 6º e a 11º maiores economias do globo, elas são apenas a 17º e 16º maiores economias exportadoras. Em outras palavras, o comércio internacional indiano e russo são fracos, figurando em potencial abaixo da sua capacidade máxima. São duas economias de mercado interno forte, que pouco dependem do mercado externo para a manutenção de uma estabilidade econômica nacional.

Como o poderio dos Estados nacionais cada vez mais vincula-se com sua capacidade econômica, aspectos econômicos são fortes indicadores da globalização de um certo Estado. Como visto anteriormente, o comércio exterior feito pela Índia e Rússia ficam abaixo de sua capacidade limite, pode-se afirmar que tais países perdem um elemento importante como representantes da Ásia frente o mundo, ou mais especificamente, com o Ocidente. Esta expressiva brecha deixada pelos indianos e russos é muito bem aproveitada pelo governo nacional chinês, já que este último é atuante para projetar e pressionar toda a comunidade internacional, principalmente os grandes players, a fim de aumentar sua própria influência no sistema. Além do mais, o Estado chinês também têm políticas progressistas no que tange sua economia nacional há décadas, de maneira a submeter seu país a um intenso universo de grandes fluxos de comércio no cenário internacional.

AS PROJEÇÕES ECONÔMICAS E O EMPECILHO DE GIGANTES ASIÁTICOS

Ainda retomando a tabela acima, é de se perceber que os chineses já superaram os estadunidenses no que tange o comércio exterior, e projeções recentes também indicam que irá ultrapassar os Estados Unidos da América (EUA) como o maior PIB nominal mundial, nas próximas décadas. Em relatório publicado ainda no ano de 2003, a consultora financeira Goldman Sachs publicou, em outubro daquele ano, a projeção econômica de longo prazo chamada “Dreaming with BRICs: The Path to 2050”. Nela, a China aparece como a maior economia mundial já em meados de 2040. Contudo, outras conclusões não favoráveis aos interesses chineses também aparecem nas projeções:

  • O Japão ainda como uma larga potência: Até 2050, o Japão e os EUA serão os únicos países do atual G6 (os dois já citados, mais a França, Alemanha, Inglaterra e Itália) nas 6 maiores economias mundiais.
  • A Rússia superando gigantes europeus: em 2050, a Rússia teria superado, considerando o PIB nominal, as economias da França, Inglaterra, Itália e Alemanha.
  • Índia com potencial de crescimento a longo prazo: além da projeção sugerir a Índia como a 3º maior potência mundial em 2050, a mesma sugere que a Índia será o único país do então BRICs a ter uma taxa de crescimento do PIB superior a 3% no mesmo ano.

Com estas informações, torna-se mais claro que, apesar do grande crescimento econômico chinês, o gigante asiático sofre para buscar uma ascensão única ou exclusiva do seu país. De certa maneira, pode-se dizer que a China busca um aumento do seu poder relativo, contudo, só consegue o aumento do seu poder absoluto, já que os outros grandes players da região também estão num processo de ascensão de suas economias nacionais. A projeção do Japão ainda ser uma das seis maiores potências econômicas globais, assim como a Índia tornar-se a terceira maior economia corrói parte da ascensão chinesa. Além do mais, em novembro de 2018, o professor indiano Brahma Chellaney fez uma análise para o portal Project Syndicate, num artigo intitulado “A concert of Indo Pacific Democracies”, na qual cita a aproximação político-econômica, além de militar, das duas maiores democracias da região: a Índia e o Japão. Ele argumenta em seu artigo que tal fortalecimento do relacionamento bilateral indo-japonês pode levar a uma maior preponderância destas duas nações no jogo político asiático, consequentemente, funcionando como um empecilho tanto da ascensão chinesa como dos próprios planos da política externa deste país (CHELLANEY, 2018). Nas palavras dele:

Having historically punched above its weight internationally, Japan is responding to China’s muscular rise by strengthening its own position in the region. Taking advantage of its considerable assets – the world’s third-largest economy, substantial high-tech skills, and a military that has recently been freed of some legal and constitutional constraints – Japan is boosting its geopolitical clout.

Também em relação à economia dos principais atores estatais na Ásia, Diego Trindade Magalhães utiliza-se do seu conceito de globalizador, para pontuar as principais economias mundiais. Segundo Magalhães, “Globalisers are the leaders […] the countries that most affect the increase or decrease of globalism and shape it characteristics […]” (MAGALHÃES, 2018 p. 3). Nesta definição, o autor considera no atual momento a China, os EUA, Alemanha e Japão como os atores globalizadores do comércio mundial. Mais uma vez, a China vê sua presença ser, numa possível hipérbole, ofuscada pela presença de outro gigante asiático: o Japão.

CONCLUSÃO

Em diversos indicadores econômicos analisados durante todo o artigo, percebe-se que a China está e é cotada a estar numa possível de destaque na economia (política) internacional. Ela também tem em sua base de interesses nacionais a projeção de seu poderio para além da sua região geográfica, e para conquistar tal façanha no SI, o método ou meio que escolheu é o de buscar ser a representante de todo o seu continente, a Ásia. Porém, a existência de outras economias preponderantes na região afeta essa busca chinesa. Mesmo que atualmente a Índia e a Rússia ainda não sejam economias tão bem internacionalizadas, as principais projeções indicam que serão. Portanto, a dificuldade do governo chinês está tanto em lidar com a força japonesa neste 2018, como também lidar com a ascensão do poderio econômico da Índia e da Rússia num futuro a médio e longo prazo.

Por fim, torna-se levemente subjetivo a definição da China como a protagonista da Ásia, o grande país que representaria esta região perante todo o globo, seja em relações diplomáticas, econômicas ou de outra natureza. Porém, é clara durante toda a análise dos dados que a China possui o protagonismo asiático. O que ela não possui é uma liderança única. Mesmo sendo a líder, a China é seguida de outras potências que, ou estão bem próximas desta líder, como o Japão, ou almejam essa proximidade, ou até mesmo este posto, como a Rússia e Índia, respectivamente. O gigante asiático é o líder, porém, está longe e continuará longe de ser o líder isolado da Ásia.

BIBLIOGRAFIA

BANCO MUNDIAL. World Development Indicators Database. Disponível em: <http://databank.worldbank.org/data/download/GDP.pdf>. Acesso em: 20 de novembro de 2018.

CHELLANEY, Brahma. A concert of Indo Pacific Democracies. 2018. Disponível em: <https://www.project-syndicate.org/commentary/free-and-open-indo-pacific-pence-tour-japan-india-by-brahma-chellaney-2018-11>. Acesso em: 20 de novembro de 2018.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. IMF Members’ Quotas and Voting Power, and IMF Board of Governors. Disponível em: <https://www.imf.org/external/np/sec/memdir/members.aspx>. Acesso em: 20 de novembro de 2018.

IKENBERRY, John. The Future of the Liberal World Order. 2011. Disponível em: <https://www.foreignaffairs.com/articles/2011-05-01/future-liberal-world-order>. Acesso em: 20 de novembro de 2018.

MAGALHÃES, Diego. The globaliser dragon: how is China changing economic globalisation?. Third World Quaterly, 16 de fevereiro de 2018.

STUENKEL, Oliver. BRICS: e o futuro da ordem global. 1. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz & Terra, 2017.

THE OBSERVATORY OF ECONOMIC COMPLEXITY. About the Observatory. Disponível em: <https://atlas.media.mit.edu/en/resources/about/>. Acesso em: 20 de novembro de 2018;

WILSON, Dominic; PURUSHOTHAMAN, Roopa. Dreaming with BRICs: The Path to 2050. 2003.

ZAKARIA, Fareed. The Post-American World. 1. ed. Nova Yorque/Londres: W. W. Norton & Company, 2008.

FONTE DA CHARGE-IMAGEM:

STEPHENS, Philip. The threats to Asia’s fragile balance of power. Disponível em: <https://www.ft.com/content/d6945102-b255-11e2-8540-00144feabdc0&gt;. Acesso em: 25 de novembro de 2018.

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