Sobre as Eleições de 2018

Boa tarde caros leitores do Alma Política. O texto de hoje é polêmico, talvez, o mais de toda a história do site. Abordarei o 2º turno das eleições presidenciais brasileiras, o embate entre Jair Bolsonaro (PSL) e Haddad (PT). Apesar de alguns textos anteriores aqui do site se esforçarem pela isenção, este artigo não é um deles. Não que sairei em defesa do candidato A ou B, contudo, farei minha análise da própria situação que o Brasil se encontra à mercê. Não chega perto do meu gosto escrever sobre temas polêmicos, pois gosto da conciliação, da prosperidade no diálogo e um avanço das discussões políticas para a frente. Não creio que a atual polarização gere frutos positivos para o país. Contudo, o diálogo que aqui farei com você, leitor, é necessário para uma autocrítica dos eleitores brasileiros. Com receio de pesadas críticas ao texto que se segue, irei escrevê-lo com citações de fontes, para amenizar as críticas (já que, o leitor que discordar do fato explicitado, terá uma fonte para o caso).

Como se desenhou o atual cenário eleitoral brasileiro? Do lado petista, a construção das eleições foi de grande incerteza. Primeiro, pois o líder do partido, o ex-presidente Lula, foi preso em março deste ano. Diante das sequentes perdas judiciais por parte dos advogados de defesa do ex-presidente, tivemos, com o passar de 2018, maior incerteza. Se o candidato estava preso, seguindo as leis nacionais, a cúpula nacional do partido deveria escolher outro candidato, mesmo que esta 2º opção estivesse altamente vinculada à imagem da 1º opção. Um dos atuais problemas para a derrota de Fernando Haddad no primeiro turno foi essa: a cúpula nacional petista errou em adiar até o fim dos prazos legais a escolha de Haddad, e por fim, os brasileiros tiveram pouquíssimo tempo para conhecê-lo e avaliá-lo. O candidato petista foi escolhido por Lula dia 11 de setembro, menos de um mês para as eleições1.

Do lado de Bolsonaro, a construção de sua candidatura à presidência se deu pelos últimos anos. O deputado federal já tinha, em 2015, uma base de seguidores razoável no universo online. Além do mais, por volta de 2016, em algumas reuniões políticas que Jair frequentava, já havia o incentivo, tanto por parte dele, como por parte de seus apoiadores, de uma candidatura à Presidência da República. Nos primeiros dias de 2018, o candidato muda de partido (do PSC para o então nanico PSL), já com a intencionalidade de se candidatar à presidência2.

Portanto, comecemos as análises críticas dos discursos de ambos os candidatos.

Os preconceitos de Bolsonaro – Algo é indiscutível na personalidade do candidato do PSL: seus preconceitos. Já declarou que não estupraria uma deputada pois ela não merecia3, defendeu o aumento de mortes na época do regime militar brasileiro, além de declarar não amar um de seus filhos, caso algum fosse homossexual. Estas e várias outras afirmações foram feitas pelo presidenciável, são, de longe, indefensáveis. A defesa de assassinato, homofobia e apologia severa ao estupro são condições que anularia, ao menos moralmente falando, a situação de qualquer homem ou mulher à cadeira de Presidente. Contudo, as falas preconceituosas que Bolsonaro expeliu pelos anos (curiosamente, a maioria anterior à decisão de ser presidenciável, vide data das fontes), apenas encontrou força pois apresenta o respaldo de significativa parcela da sociedade. Em outras palavras, se não houvesse a identificação da população com essas falas, não haveria motivo para que elas continuassem a serem proclamadas. Todos os eleitores de Bolsonaro deveriam questioná-lo sobre suas falas, e, ao menos, critica-lo, reprimi-lo, para que fique clara a indignação e não-aceitação, por parte de seus eleitores, de visões tão preconceituosas.

Haddad e o PT – O candidato petista apresenta-se como uma extensão lulista. Como o ex-presidente não pode se candidatar, alguém que o representa, ou ainda mais, é sua parte, foi escolhido. Portanto, a campanha tornou-se: “Lula é Haddad”, e em letras menores, diz-se que Manuela D’ávila é sua vice. Em setembro de 2018, Fernando Haddad não foi Fernando. Neste mês, o presidenciável abdicou de sua personalidade e valores políticos para ser, como já dito, a extensão do próprio Lula. Além do mais, esta abdicação de suas características, e principalmente sua adesão à retórica petista de prisão política de Lula, reforça uma ideia já batida, de defesa de um político mesmo quando já condenado em duas instâncias. A submissão de Haddad à ideia de que Lula é preso político dá voz à sua crítica, já que parte significativa do povo brasileiro está esgotado de tal retórica. Cansado de imoralidade política, parte do povo criou uma rejeição forte ao PT. Para entender melhor o porquê da alta rejeição ao PT nesta onda recente de julgamento de políticos, vide o texto do Alma Política clicando aqui.

À par destas críticas a ambos os candidatos, analisemos um pouco mais da eleição do 1º turno. Tivemos uma vitória de Jair Bolsonaro, como já era esperado pelas pesquisas eleitorais. Contudo, as pesquisas eleitorais de 2018 não tinham como afirmar, com tanta fidelidade, um número realmente aproximado da % de voto dos candidatos. Por que? Pois as próprias pesquisas já previam um altíssimo número de eleitores indecisos, que deveriam decidir seus votos apenas no dia da eleição4. A indecisão, como já afirmado por analistas políticos há semanas, seria o grande coringa (leia-se surpresa) desta eleição. E de fato, foi. Com o Bolsonaro indo ao 2º turno com Fernando Haddad, reforça as acusações da esquerda sobre os preconceitos e falas polêmicos do candidato do PSL. E eu reforço: toda a crítica aos seus preconceitos são legítimas, e muito bem pressionadas contra o candidato. Porém, não só é preciso entender o simbolismo que Jair Bolsonaro representa, mas qual foi a situação que a própria esquerda cultivou, de maneira a dar espaço para a ascensão do candidato oposicionista.

Então, qual foi a condição em que os governos petistas deixaram o país? Importante iniciar reconhecendo os avanços do primeiro governo petista, sob o comando de Lula. Inclusive, é bem comum encontrarmos na massa da população brasileira pessoas que, hoje contrárias ao petismo, afirmam terem votado em Lula em 2002. Parte significativa das pessoas que votaram em Lula em 2002 e 2006 são críticas ao petismo nos dias de hoje. Porém, voltemos à situação brasileira. Observe os dados abaixo:

Desemprego2012

Figura 1. Desemprego no Brasil em 2012.

Desemprego2016

Figura 2. Desemprego no Brasil em 2016.

Recolhi os dados de 2012, pois ali já abrange o ano ou os anos precedentes da atual crise econômica brasileira. E também utilizei o dado de desemprego de 2016, pois foi quando Michel Temer assumiu a presidência da república, mais exatamente em maio deste ano. Contudo, foi-se analisado até o fim do ano de 2016, já que as políticas econômicas não foram bruscamente alteradas, produzindo efeitos imediatos (à curto-prazo) suficientes para alterar a tendência. E qual era a tendência? De aumento descontrolado do desemprego. Perceba que durante o ano de 2012, ainda havia uma queda do desemprego, tendo abaixado de 7,9% para 6,9%. Porém, em 2016 (ainda no governo Dilma Rouseff, do PT), aumentou-se o desemprego para meados de 12 milhões de pessoas, ou 12%. O desemprego vêm após recessões na produtividade econômica dos setores contratantes. Com uma ressalva da agropecuária, nesta crise a indústria, setor de serviços e outros perderam muita força, resultando no aumento do desemprego do mesmo período. Perceba o decréscimo severo no PIB brasileiro, além da recessão produtiva que o país passou:

PIB2008ate2017.PNG

Os números que você leu não são autoexplicativos. Neles, podemos ver uma crise mundial (2008, mas com efeitos em 2009), podemos ver uma política de incentivo ao consumo com redução de impostos (2010 e 2015), e podemos ver o auge da crise econômica recente. Contudo, gostaria que o leitor visse apenas a grande tendência. A crise. Ela se vê bem estruturada já em 2014, e atinge o país profundamente nos anos sequentes.

De acordo com os poucos, mas impactantes dados que aqui foram apresentados, fica claro o ambiente que ascendeu o candidato Jair Bolsonaro. Enquanto que a militância do PT, assim como a própria campanha de Fernando Haddad, sempre delegava pouca importância à crise econômica, Bolsonaro já atacava as bases da crise. E aí está um fator que o tornou tão popular. A estratégia petista falhou pois eles desvincularam a imagem dos dois governos Dilma Rouseff da campanha do PT. Haddad é Lula, mas não é Dilma! Contudo, o problema é que o povo brasileiro, em sua maioria associa, com razão, o fracasso da economia brasileira à administração Rouseff, e isto fez com que a imagem que se tem do PT fosse a de não assumir as próprias culpas. Hoje, a campanha petista busca um salvador para os problemas que foram conduzidos sob à sua própria administração. É impossível delegar, como na época do 1º Governo Lula, os problemas sociais do Brasil ao FHC. Lembre-se: Antes do Governo Rouseff, havia outro governo Rouseff. E antes deles, dois governos Lulas. Então, como se justifica a crise atual, como atribuí-la a um opositor, se toda a crise nasceu e desenvolveu sob a administração petista? A resposta é: não se busca mais um culpado, mais um salvador. E como a alma mais honesta do Brasil está presa6, o escolhido foi Haddad.

Com a crise política e econômica aprofundando-se, a polarização da política brasileira também ganhou força, infelizmente. É uma tendência comum, embora não interessante, quando temos um período de piora no estilo de vida do povo. A polarização exacerbada que temos estimula a deusificação de candidatos políticos, independente da matriz ideológica dos mesmos. Veja bem: mesmo com todas as falhas humanas, morais e políticas que Lula cometeu, ele continua a ser visto como uma personalidade a cima da lei, que não cometeu os crimes da qual foi condenado, e muito menos é o responsável por quaisquer atos referentes ao Mensalão ou corrupção na Petrobras. Todos os políticos, em dezenas, mentiram quando delataram fatos corruptos sobre o Lula. Contudo, se o político acusado for do PSDB, DEM, PP, ou outro partido opositor ao PT, as acusações são automaticamente verídicas, mesmo provindo do mesmo delator. Essa utilização de dois pesos e duas medidas é prejudicial para toda a política brasileira, não só quando analisamos os políticos petistas. Vejamos o próprio Bolsonaro, como exemplo. Muitos de seus seguidores criticam ferrenhamente algumas instituições internacionais quando as mesmas se pronunciam contrárias à algum fator político interno no Brasil. Contudo, os mesmos eleitores do capitão utilizam como base relatórias dessas mesmas instituições para criticarem a Venezuela.

Passemos para a parte final do texto.

Não considero interessante as divisões de esquerda e direita, pois creio que são limitantes às formas de pensar a política. Além do mais, incita um pensamento binário tão prejudicial em tempos como estes. O binarismo político do brasileiro é prejudicial, pois, quando se faz uma crítica ao candidato A, se pressupõe que você é, além de defensor, eleitor do candidato B. E isto não limita-se ao 2º turno, na qual só temos dois candidatos. Em várias foram as ocasiões em que eu critiquei falas do Bolsonaro para seus potenciais eleitores, e me vi acusado de ser petista. Da mesma forma quando, neste primeiro turno, já critiquei o PT, e foi-se subentendido que eu era eleitor do Bolsonaro. O que o Brasil ganha com isso? Eleições com um debate cada vez mais raso, sem o incentivo que os cidadãos deveriam dar as ideias e propostas de cada lado. Contudo, esses erros em que critiquei dos presidenciáveis já foram entendido por ambos, e é possível ver uma mudança na campanha de cada um.

A começar com o capitão do exército. Ele já amenizou em muito o tom do seu discurso, e em publicações recentes, pede uma união do povo brasileiro, sem exclusão de raça, gênero ou sexualidade. Fernando Haddad também já começou a se aproximar de grupos mais conservadores, como algumas matrizes de igrejas evangélicas, assim como deu um tom mais nacionalista e patriótico em sua campanha. De qualquer maneira, eu torço para o avanço do país. Diminuição das desigualdades na nossa pátria amada, assim como redução da violência que tanto vitimizam nossos jovens e nosso povo. Gostaria que este artigo tenha sido lido de coração aberto, por ambos os lados dessas campanhas. Espero não ter me associado ao lado de nenhum político, mas ao lado do progresso do país. Tenho total consciência de que vários temas relevantes das eleições e dos presidenciáveis ficaram para trás, mas bem, são assunto para outro artigo. Agradeço a leitura de todos, e que, independente do vencedor, que todos torçam e pressionem o futuro presidente a um posicionamento político condizente com o que o cargo necessita.

FONTES:

Escolhe de Fernando Haddadhttps://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/pt-confirma-fernando-haddad-como-candidato-a-presidencia,867ab421cb4dc8e402917e08061c9727oyp3meug.html

Bolsonaro muda de partido – https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,presidente-do-psl-confirma-que-bolsonaro-sera-candidato-pelo-partido,70002140037

Preconceitos de Bolsonaro – https://exame.abril.com.br/brasil/7-vezes-em-que-gays-e-mulheres-foram-alvo-de-bolsonaro/

Evolução da intenção de voto – https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/05/pesquisas-ibope-nos-estados-veja-evolucao-da-intencao-de-voto-para-presidente-05-10.ghtml

PIB 2008-2017 – https://infograficos.gazetadopovo.com.br/economia/evolucao-do-pib-em-10-anos-2008-2017/

Lula, a alma mais honesta do Brasil – https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/nao-tem-uma-viva-alma-mais-honesta-do-que-eu-afirma-lula/

Anúncios

Opina, comente! Seja livre para dar sua opinião nesta postagem de A Alma Política

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: