O espelho do Brasil: as eleições tocantinenses

As eleições suplementares no Tocantins revela ao Brasil indignação com a atual classe política estadual, e, consequentemente, nacional. Pela queda do governador Marcelo Miranda, eleito em 2014, subiu provisoriamente o presidente da Assembleia Legislativa Mauro Carlesse, e assim, anunciada novas eleições no estado, para um mandato-tampão. Eleições inclusive diretas, com custos milionários, mesmo que a poucos meses da eleição de outubro (vide a “agilidade” do Tribunal Superior Eleitoral de julgar políticos em mandato).  Portanto, os eleitores tocantinenses foram convocados para uma eleição no dia 03 de junho deste ano, a revelar ao Brasil a proporção da insatisfação popular frente à classe política.

No 1º turno houveram seis candidatos: Mauro Carlesse, Vicentinho, Carlos Amastha, Kátia Abreu, Marlon Reis, Marcos da Cêramica e Mário Lúcio (não foi contabilizado os votos do último por questões jurídicas). De um eleitorado de 1 milhão de eleitores (o número exato é: 1.018.329), o que mais se destacou foi a quantidade de abstenções, votos nulos e brancos. Ou seja, de 1 milhão de eleitores aptos a votar:

  • Abstenções: 306.877 – 30,14%
  • Nulo: 121877 – 17,13%
  • Branco: 14.660 – 2,06%
  • TOTAL de nulos, brancos e abstenções: 443.414 – 43,5%

Enquanto que os candidatos que passaram para o 2º turno:

  • Mauro Carlesse: 174.275 – 30,31% (dos votos válidos)
  • Vicentinho: 127.758 – 22.22% (dos votos válidos)

Nesse caso, os dados falam por si só: junta-se os votos para os dois candidatos que disputaram o 2º turno, e não chega ao total de nulos, brancos e abstenções. Apenas os votos nulos, por pouco, não passaram o 2º colocado, Vicentinho. E o que isso significa? Nada além do óbvio: o povo tocantinense, assim como o povo brasileiro, enfartou-se da velha política, a política de troca de favores, dos velhos rostos, das velhas práticas, da compra de voto, das tantas promessas falsas. É uma clara representação da crescente insatisfação política, de tantos candidatos que anunciam mudar o estado da água pro vinho, mas que tudo faz para o mantimento do status quo regional, uma luta que eles travam pelos próprios interesses, que por vezes, contrasta diretamente com os interesses do estado que supostamente eles deveriam prezar.

Outro fator único nessas eleições tocantinenses foi a presença de Marlon Reis. Jurista, um dos idealizadores da lei da Ficha Limpa (a mesma sancionada por Lula e que hoje o impede de concorrer as eleições de outubro), apresenta-se como um candidato novo, membro da REDE, partido criado recentemente por Marina Silva (que, por curiosidade, sempre apresento-se como uma terceira via à velha política e a dualidade PT-PSDB; não que seu partido traga certo mérito ou prestígio a Marlon). Nunca foi candidato a outro cargo eletivo (ele atuou por muitos anos como juiz no Maranhão, mesmo que tenha nascido no interior tocantinense), Marlon representou para muitos eleitores voto por mudança, um voto de sinalização de “queremos novidade”. Com apenas 8s de propaganda eleitoral, frente aos longos minutos que os outros candidatos possuíam, o ex-jurista conseguiu as seguintes façanhas:

  • 3º lugar na capital, Palmas. Recebeu próximo de 20.000 votos, mais que o dobro da senadora de longa data Kátia Abreu.
  • 3º Lugar em Araguaína, segunda maior cidade do Tocantins, ficou na frente da senadora Kátia Abreu e do senador Vicentinho
  • 3º Lugar em Gurupi, mais uma vez, na frente de Kátia e Vicentinho

Os votos para Marlon se destacaram nas maiores cidades do estado, como já destacados, e outras de médio-porte (para os padrões do Tocantins), como Tocantinópolis, Miracema Porto Nacional e Guaraí. Em uma situação semelhante ao do ex-prefeito de Palmas Carlos Amastha, Reis pouco conseguiu adentrar no interior do Tocantins, cidades onde pesa muito a necessidade de ceder para velhas práticas políticas, como a definição de vários cabos eleitorais, troca de favores, entre outras. Amastha mesmo, apesar de todo o seu esforço ainda em 2017 para fazer alianças municipais na região do Bico do Papagaio e outras localidades tocantinenses, na hora da eleição, poucos foram os aliados de pulso firme a continuarem com eles (dos já raros políticos regionais que um dia tinham fechado alianças com ele). Inclusive, todas essas situações eleitoreiras do interior são muito bem descritas, citadas e analisadas pelo próprio Marlon Reis em seu livro “O Nobre Deputado”, uma ótima indicação de leitura. Vista tais dificuldades, além do custo altamente limitado de campanha, frente aos outros candidatos, Marlon Reis tornara-se um símbolo da renovação (sem entrar no mérito se ele assim mereça possuir tal título). Os votos destinados a ele, não necessariamente se justificavam pelo seu projeto político, suas artimanhas anunciadas para resolver os vastos problemas regionais, mas são votos de quem diz chega. São votos de um candidato que tornara-se nada mais que um símbolo da desilusão política por parte do povo.

Bem, o segundo turno, que ocorreu no dia 26 de junho, demonstrou o que já trata-se nesse artigo desde sua 1º linha: o povo está indignado com seus atuais representantes/candidatos. A abstenção que tinha sido de 30% no 1º turno, aproximou-se de 35% no 2º turno (que é um número assustadoramente alto para um país na qual sua população é obrigada a votar). Segue como ficou o 2º turno das eleições suplementares tocantinenses:

1º Lugar: nulos, abstenções e brancos: 527.868 – 51,8%

2º Lugar: Mauro Carlesse: 368.553 – 36,1%

3º Lugar: Vicentinho: 121.908 – 12,1%

Numa eleição em que o vencedor não vence, e que o vice-colocado está em 3º, o recado do povo se torna claro: “algo precisa mudar”.  O eleitor do Tocantins foi o primeiro do Brasil a dar seu basta, seu voto de protesto, ou sua ausência de voto como protesto. Em outubro a nação seguirá o que foi visto nas terras tocantinenses, ou manterá a velha estrutura de poder que tanto desgastou sua população?

FONTE:

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Divulgação de resultados de eleições. Acesso em: 26 de junho de 2018. Disponível em: http://divulga.tse.jus.br/oficial/index.html

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